
Todas as pessoas que me conhecem bem sabem o carinho que nutro pelo Clube Desportivo da Póvoa. Participei, de modo intenso e nas funções mais diversas, na sua vida durante mais de vinte anos. Interrompi a minha participação activa porque, sendo professor e trabalhando regularmente em horários mistos mas com forte componente nocturna, não podia dar o acompanhamento necessário como treinador, coordenador ou dirigente.
Nunca me arrependi de qualquer momento passado no clube, tendo este sido fundamental em todo o meu processo formativo. Ao contrário do que muitas vezes se diz nestas circunstâncias, recebi muito mais do clube do que dei. Não recebi em dinheiro, mas em aquisição de competências que foram e são importantes na minha vida pessoal, profissional e institucional. Quanto ao meu contributo, não serei a pessoa mais indicada para falar nele, mas orgulho-me imenso do trabalho desenvolvido em conjunto com muitos amigos de diversas gerações.
As circunstâncias da vida mudam e, naturalmente, passei a ter muito menos contacto, aparecendo no clube apenas para pagar as quotas e para ver alguns jogos, sobretudo da modalidade a que estive mais ligado, o basquetebol. Nos últimos anos, em virtude do meu filho mais novo praticar aquela modalidade no clube, voltei a frequentar mais regularmente as instalações, nomeadamente o pavilhão e apercebi-me, gradualmente, das mudanças implementadas, principalmente ao nível dos recursos humanos utilizados que se tornaram, cada vez mais, “importados”.
Neste “meu regresso ao clube” acompanhei, como podia, todo o processo de eventual transferência das instalações desportivas para o parque da cidade. Gostaria muito de ter estado presente na última assembleia-geral mas, em virtude da minha actividade profissional as noites, de segunda a sexta-feira, estão bastante ocupadas. O não ter estado presente, não significa que não tenha interesse e opinião sobre o tema e não tenha acesso ao conteúdo da discussão e das decisões tendo, inclusivamente, solicitado à direcção do clube autorização para consulta do dossier existente à data das decisões da referida assembleia. Falei, também, com vários sócios com opiniões diversas sobre este assunto, procurando contextualizar melhor toda esta problemática.
Como é do conhecimento dos leitores deste blog, tomei uma posição inequívoca sobre todo o processo associado à zona E54, manifestando-me, como poveiro, contra a aprovação do Plano de Pormenor que, na minha opinião, deu mais um contributo para uma nova “machadada” no ordenamento do nosso território.
No entanto, após a aprovação pela Assembleia Municipal, entendo que será muito difícil ao Clube Desportivo da Póvoa efectuar uma opção estratégica diferente e que não assente na “transferência” das instalações. Esta convicção baseia-se no simples facto de sempre ter existido uma enorme dependência financeira do clube em relação à autarquia e, como esta se empenhou nesta solução, dificilmente lidaria bem com uma opção do clube que contrariasse a sua. Ao aprovar essa estratégia, na última assembleia-geral, o CDP, associa-se à onda migratória acabando por, como afirma José Ricardo em corajoso artigo publicado no Póvoa Semanário de 11 de Novembro, ser empurrado para o Parque da Cidade. Nesse artigo, José Ricardo faz uma abordagem completamente diferente à que está instituída, apontando o caminho do crescimento e rentabilização do espaço já existente como uma alternativa à transferência de instalações. Também Carlos Mateus, em interessante artigo de opinião registado na primeira edição de Novembro do Voz da Póvoa, lança várias questões pertinentes que deviam merecer, pelo menos, o reforço da discussão.
É para mim bastante claro que as razões apontadas pela direcção carecem de sustentação. Na verdade, o que mais me incomoda neste processo é a ausência de uma fundamentação segura para as alterações propostas, dando-se um autêntico “salto no escuro” para uma nova realidade que, tirando as imagens interessantes elaboradas por programas de desenho, ninguém sabe bem qual é. Analisando os números disponibilizados pela direcção, abdica-se de duas das mais seguras e importantes fontes endógenas de receitas actuais, o parque de estacionamento e piscina exterior, em troca de perspectiva de crescimento da receita fixa à custa de novas valências, como a clínica, o health club e o restaurante, partindo do pressuposto que vai correr tudo bem e que vai ser fácil encontrar os parceiros estratégicos para esses empreendimentos. Por outro lado, é apontado um “modelo de negócio” em que, no final e após a venda dos terrenos actuais e a aquisição dos novos, associada à execução das diversas valências previstas, surge uma pequeníssima “folga” de pouco mais de 200 mil euros. Para estes números baterem de tal modo certo (refira-se que estamos a falar de mais de 12 milhões de euros para a venda dos terrenos e um valor ligeiramente inferior para a compra dos novos e respectivas edificações), dá a sensação que, como é apanágio do nosso concelho, se vai construir em função da eventual disponibilidade financeira possibilitada pela venda e não em função das necessidades do clube. Apesar de não ser gestor nem economista, atrevo-me a questionar esta opção optimista, arriscada e absorvente de todos os capitais que o clube pode gerar. Não seria mais sensato elaborar um plano que desse resposta às razões enunciadas para justificar a transferência, mas que garantisse segurança perante a incerteza do mercado e que acautelasse futuras derrapagens?
Para além de todas as dúvidas que acabo de enunciar e não querendo colocar em causa a seriedade de ninguém, continuo a pensar, como defendi anteriormente neste blog (
no post de 13 de Maio de 2009 intitulado “Os Clubes da Póvoa / Plano de Pormenor”), que seria muito mais correcta a abertura da possibilidade de outros arquitectos apresentarem, sem custos para o clube, eventuais propostas através, por exemplo, de uma espécie de “concurso de ideias de arquitectos amigos do clube” porque, desta forma, o processo seria mais transparente e, no caso de não aparecer qualquer proposta, seria melhor entendida, por todos os sócios, a dedicação “profissional” do presidente do clube nesta matéria.