Na edição do jornal Público do passado dia 3 de Janeiro, surgiu um interessante artigo sobre a ausência de estratégia que a esmagadora maioria das cidades portuguesas revela. Baseado nos estudos de uma equipa liderada pelo Vice-reitor da Universidade do Minho, José Mendes, investigador na área do Planeamento Regional, o artigo refere que, de um modo geral, as cidades portuguesas investiram quase só nas infra-estruturas básicas e nos equipamentos e, passados tantos anos, continuam a fazer o mesmo. Segundo José Mendes, as cidades já deveriam estar, há muito tempo, a utilizar o dinheiro disponível no quadro comunitário de apoio menos em obras físicas e mais em iniciativas imateriais que permitam a construção de uma forte identidade e especificidade e que, com isso, atraiam mais empresas e fixem mais pessoas, sobretudo jovens e talentosas, que são condições essenciais para o desenvolvimento económico e social do espaço em que vivem. Utilizando a imagem da linguagem informática afirma que, salvo honrosas excepções, as cidades têm o seu “hardware” montado mas, em contrapartida, como não apostam nas pessoas, não fazem correr o “software”, ficando condenadas ao insucesso. Aponta algumas excepções como Óbidos e Guimarães, várias vezes citadas neste blog, que conseguiram encontrar os seus “pontos fortes” e, desde então, não param de os potenciar.
Na minha opinião, e tal como tenho referido várias vezes neste espaço, a nossa cidade, apesar do seu potencial, enquadra-se bem na regra definida por José Mendes.
O trabalho de identificação dos nossos pontos fortes está feito?
Estão identificadas as nossas especificidades?
É segura a nossa identidade?
É clara e conhecida a visão que os responsáveis autárquicos têm para a cidade e concelho?
Na minha opinião, infelizmente não!
Tal como a generalidade das cidades portuguesas preocupou-se apenas e só com as “obras”, ou seja com o “Hardware”. No que diz respeito ao reduzido “investimento nas pessoas” desenvolve, há tempo a mais, uma série de iniciativas rotineiras, desenquadradas de uma visão estratégica de potenciação do desenvolvimento e de valor altamente discutível, que culminam, no final do ano, com o autêntico desperdício de energias e de recursos e que funciona como espécie de “cereja no topo do bolo” do actual poder, o circunspecto Encontro pela Paz.
No entanto, a nossa cidade e concelho apresentam um conjunto de condições que, devidamente aproveitadas e trabalhadas, poderiam originar uma realidade mais distinta e desenvolvida. A vizinhança do mar, a grande linha de costa, a história rica e muito associada à actividade piscatória, as praias com uma beleza especial, o contraste actividade piscatória/jogo, diversão nocturna/casino/outros, o porto de pesca e a marina, o clima ameno e o relevo suave, a fertilidade do solo de algumas freguesias, a inserção na Área Metropolitana do Porto, a proximidade de cidades importantes e com forte pólos universitários, a existência de um desses pólos no nosso território e a facilidade de deslocação para as empresas e jovens universitários que optem por se instalar no nosso concelho, são apenas alguns dos elementos dispersos que poderiam contribuir, com o cimento correcto, para um concelho muito mais dinâmico, desenvolvido e atractivo.
Não chega definir um ou vários slogans e espalhá-los em cartazes publicitários. É preciso trabalhar uma ideia de cidade e desenvolver um conjunto de acções que permita, passo a passo, a concretização dessa ideia, mudando completamente a actividade rotineira que caracteriza o nosso concelho. Infelizmente, estamos condenados, nos tempos mais próximos, a continuar as obras pelas obras, inundando-nos de “Hardware” sem aproveitamento e perdendo tempo e oportunidade para desenvolver as acções que já se impunham há muito tempo.