
O envelhecimento apresenta um enorme conjunto de sintomas e, nalguns casos, declarámos-lhes uma autêntica guerra. Tinta para cabelos brancos ou viagra para a impotência (desculpem-me, disfunção eréctil que é mais "leve"), são apenas dois exemplos da nossa resposta.
No entanto, há um sintoma para o qual não encontrámos, ainda, uma resposta tecnológica ajustada. O sinal mais evidente de que estamos mesmo a ficar velhos é iniciarmos um diálogo afirmando algo do tipo:
- No meu tempo é que era.
- A música do meu tempo era um espectáculo. A dos nossos dias é só barulho.
- Não havia equipa que jogasse tão bem como aquela que tivemos naquele ano. Lembras-te?
Nestas situações, os jovens olham para nós com muita complacência e, claramente, deixam-nos com as memórias do passado, que, para eles são uma autêntica “seca”. O facto de ser professor ajuda-me a ter fortes convicções sobre esta matéria.
Vem tudo isto a propósito de mais uma festa do São Pedro na Póvoa que, na minha opinião, é das mais interessantes festas populares que conheço. Deve ser das poucas, por esse país fora, em que ainda é possível comer e beber em resultado da oferta dos particulares. Um pouco de boa disposição e atrevimento misturado com algum conhecimento do meio, é suficiente para provar a sardinha e o vinho.
Apesar de não ter uma tradição tão antiga como o seu enraizamento na sociedade faria supor, está nos genes de todos os poveiros e continua a provocar espanto a todos os que a vivem pela primeira vez. É o cheiro intenso a sardinha assada que perfuma toda a cidade e assinala, melhor do que uma placa, a entrada no local da festa. São as mesas e as cadeiras nos passeios, as fogueiras nas ruas, a sardinha a pingar e a caneca a entornar. São as rivalidades entre os bairros, as danças dos grupos organizados e, ainda mais bonito, os apoiantes que, na retaguarda, acompanham os dançarinos, cantando e dançando com enorme prazer, sendo apenas dispensáveis os cânticos típicos das claques de futebol. E, por fim, são os bailaricos com música típica da região, misturados com as autênticas discotecas ao ar livre da Caetano de Oliveira, por exemplo.
Quando nos apercebemos estamos a dizer:
- No meu tempo é que era. Não havia música barulhenta.
Nada mais falso. Quando éramos mais novos, também tínhamos a mania que as músicas eram pirosas e, se tivéssemos possibilidades, colocávamos os grupos pop/rock do nosso gosto. Deixemo-nos de conversas de velhos. Aceitemos a variedade musical que a festa nos proporciona e preocupemo-nos, apenas, em manter as fogueiras nas ruas, as mesas e as cadeiras nos passeios e a sardinha e o vinho à disposição de todos.
PS: As chaves são do belíssimo primeiro terço do Parque da Cidade que, sinceramente, deve ser bem aproveitado pelos poveiros nesta fase em que ainda não há construção do novo estádio.