O envelhecimento provoca, em todos nós, uma redução gradual das capacidades físicas e intelectuais. Podemos ser mais fortes nas questões relacionadas com a maturidade e em que a experiência é decisiva, mas falha-nos a visão, a audição, a destreza motora e de raciocínio e, por todos esses motivos, entramos num irreversível processo de declínio que está devidamente estudado pela comunidade científica.
No entanto essa comunidade desconhece um autêntico “Caso de Estudo” da nossa cidade que, por mera coincidência, é a responsável pela minha vinda ao mundo.
Faz hoje 86 anos. É o esteio sereno e indiscutível de uma família numerosa. Resistiu, com uma força arrepiante, às dificuldades que as circunstâncias da vida lhe colocaram, nomeadamente quando foi confrontada com a inevitabilidade da morte de entes queridos.
Ainda hoje, quando surgem novos problemas, revela uma força interior de tal forma anormal que a leva, muitas vezes, a confortar quem tinha a obrigação de dar conforto. A força, provavelmente encontrada numa fé muito segura em Deus, é tanta que, por vezes, até assusta. Considero-a um autêntico “rochedo sensível”, visto que a sua força e preocupação com os outros é indescritível.
Foi sempre muito positiva na forma como educou os filhos e como auxiliou na educação dos netos e, agora, dos bisnetos. Numa altura em que a palavra castigo imperava e a palavra reforço positivo não fazia parte do vocabulário em educação, contribuía, de modo incrível, para o reforço da auto-estima de todos os descendentes. Sabia, como ninguém, criar um clima de responsabilização individual que fazia com que não fossem necessárias normas rígidas para que, todos nós, crescêssemos bem. Não precisava de nos mandar estudar ou dizer a hora a que devíamos chegar a casa, após uma saída nocturna, porque tinha uma impressionante habilidade para estimular a nossa autonomia. Ainda agora, com os netos, procede de igual forma. Nas pequenas crises individuais, são normais as visitas para breves diálogos a sós que terminam, invariavelmente, com saídas muito mais animadas do que as entradas. Acredita, como mais ninguém, nas capacidades das pessoas que ama.
À medida que nos fomos tornando adultos, respeitou a nossa necessidade de espaço e, quando saímos de casa, preocupou-se apenas com o nosso bem-estar, não nos obrigando, como infelizmente acontece com muitos pais, a visitas regulares ou aos tradicionais almoços domingueiros. A frase que mais ouvíamos e que “não era dita da boca para fora” era:
- Não se preocupem em cá vir. O que preciso de saber é que estão bem!
Detentora de uma formação fortemente marcada pela influência da Igreja e possuidora de uma fé inabalável, aceitou, com toda a naturalidade, os caminhos diversificados seguidos pelos seus filhos, demonstrando capacidades relacionadas com a tolerância, que bem falta fazem a muitos dos responsáveis da hierarquia religiosa.
Juntamente com o meu pai, passou-nos valores que cimentaram toda a família e que, nos tempos actuais, necessitam, mais do nunca, de ser recuperados. Como vivemos uma época de sucesso a todo o custo, lucros fáceis, de aparências, de individualismo e de ausência de preocupações sociais, os valores da solidariedade, da discrição e da justiça têm que ser, não só proclamados, como defendidos no concreto. Enquanto muitos se orgulham do seu novo carro topo de gama ou do sucesso perene na bolsa, cada vez mais valorizo a sorte que tive em ter sofrido a sua influência, bem como a do meu falecido pai.
Só lhe encontro um defeito e que se relaciona com o enorme receio que os seus descendentes se dediquem a actividades de visibilidade pública. O receio da exposição corresponde, no fundo, a uma tentativa de protecção.
Será defeito? Ou não será, uma vez mais a sua enorme sabedoria a defender a importância da intervenção discreta?